
Considerações gerais
O setor sucroalcooleiro do Brasil tem despertado
atenções locais e do exterior.
Embalado por preços do petróleo superiores a
US$ 60 o barril, por preocupações ambientais
cada vez maiores resultantes do uso do combustível
fóssil e, internamente, pelo sucesso dos motores bicombustíveis,
os flex fuels, o etanol tornou-se a bola da vez quando se
quer falar de energia renovável. As usinas de álcool,
há séculos parte de um cenário que era
símbolo do atraso, estão hoje no epicentro desta
revolução energética que envolve todo
o planeta.
Grandes investidores e corporações internacionais
estão de olho no setor. É o caso do megainvestidor
George Soros, que comprou uma usina de álcool em Minas
Gerais por US$ 200 milhões, e dos fundadores da Google
Inc, os empresários Sergey Brin e Larry Page, que visitaram
uma usina em São Paulo e mostraram-se abertos a fazer
investimentos no país. O combustível brasileiro,
que hoje desperta a cobiça internacional, foi, porém,
concebido comercialmente no regime militar, nos anos 70, através
do Programa Nacional do Álcool, o Proálcool.
O Proálcool
O Brasil, tal como os principais países do
mundo, apresentava até o começo dos anos 70
uma elevada dependência externa da energia advinda do
petróleo. Em 1973, o combustível fóssil
era responsável pelo abastecimento de 54,8 mil Toneladas
de Petróleo Equivalente (TEP) no país, o que
implicava 42,8% da composição relativa da matriz
energética brasileira. Neste ano, a dependência
externa do petróleo por parte do Brasil chegava a 76,9%.
Vale dizer, que durante o início dos anos 70, outros
dois itens importantes na composição da matriz
energética nacional (medidas em TEP) eram a lenha (27%)
e a energia hidroelétrica (19%).
Devemos considerar ainda que o modelo de industrialização
recente no Brasil esteve fortemente ancorado no desenvolvimento
da indústria automotiva, em especial, no mercado dos
veículos de passeio. Assim, a dependência da
gasolina importada também era muito elevada. Em termos
do consumo dos derivados do petróleo, a gasolina (tipos
A e B) respondia por 13.620 milhões de metros cúbicos
em 1973, o que representava 34,38% dos derivados do petróleo,
o maior percentual de consumo individual, vindo na frente
do óleo diesel (consumo de 9.712 milhões de
metros cúbicos, 24,52% do total dos derivados do petróleo)
e dos óleos combustíveis (12.630 milhões
de metros cúbicos, 31,89% do total dos derivados do
petróleo).
Os preços do petróleo (OPEP) situavam-se, em
janeiro de 1973, em US$ 2,59 o barril. Após Guerra
Árabe-Israelense, quando eclodiu o choque do petróleo,
estes preços subiram para US$ 10,95, em janeiro de
1974. Ou seja, em um ano o preço desta commodity registrou
um aumento de 322%. Desta forma, se em 1973 a importação
do petróleo e dos seus derivados representavam respectivamente
9% e 11% do valor total das importações, em
1975, tais proporções se elevariam para, respectivamente,
22% e 23%. Tal patamar dos preços do petróleo
e de seus derivados manter-se-ia durante a maior parte da
segunda metade da década de 70, ficando na faixa de
US $ 9,54 (agosto de 1975) a US$ 14,85 (dezembro de 1978).
Durante o ano de 1979, contudo, voltou a ocorrer um segundo
choque do produto. Os preços praticados no mercado
internacional (OPEP) pularam para um patamar de US$ 30 o barril
durante a primeira metade dos anos 80. O corolário
deste segundo choque foi a elevação dos custos
relativos do petróleo e de seus derivados na Balança
Comercial brasileira, passando para 49% e 53% do valor total
das importações, respectivamente.
Para minimizar os efeitos da crise do petróleo, o governo
brasileiro lançou, novembro de 1975, o Programa Nacional
do Álcool, o Proálcool. A idéia era superar
o chamado “gargalo energético” e assim
reduzir o déficit da Balança Comercial brasileira.
Inicialmente, a solução operacional foi criar
procedimentos, incentivos e facilidades que permitissem, num
primeiro momento, misturar etanol à gasolina consumida
no país e posteriormente contar, quase que exclusivamente,
com esse combustível para abastecer a frota de veículos
leves nacionais.
Em 1979 surgiu o carro a álcool brasileiro e com ele
as raízes de um parque produtor com capacidade anual
instalada de 18 bilhões de litros de etanol combustível,
equivalentes a 100 milhões de barris por ano. O desenvolvimento
de tecnologia específica conquistou os brasileiros
e a frota nacional chegou a ser formada por 85% de veículos
leves movidos a etanol, no final dos anos 80. A queda dos
preços do petróleo e as dificuldades econômicas
enfrentadas pelo país no quarto final do século
passado promoveram mudanças significativas da política
governamental, que desestimularam o consumo, a produção
de etanol hidratado e de veículos movidos com esse
combustível.
Mas o crescimento de mercado de derivados de petróleo
impulsionou a fabricação e o emprego do etanol
anidro, na forma de aditivo, em 25% da gasolina consumida
no Brasil, prática atestada, comprovada e até
hoje incorporada à matriz de combustíveis brasileira.
Ao longo dos anos 90, o mercado de cana-de açúcar,
açúcar e álcool foi sendo desregulamentado.
As crises políticas no Oriente Médio –
região que responde pela maior parte das reservas conhecidas
de petróleo – e o surgimento do veículo
multicombustível representaram uma nova etapa para
o carro a álcool brasileiro.
A revolução dos motores flex fuels
Trinta anos depois do início do Proálcool, o
Brasil vive agora uma nova expansão dos canaviais com
o objetivo de oferecer, em grande escala, o combustível
alternativo. O plantio avança além das áreas
tradicionais, do interior paulista e do Nordeste, e espalha-se
pelos cerrados. A nova escalada não é um movimento
comandado pelo governo, como a ocorrida no final da década
de 70, quando o Brasil encontrou no álcool a solução
para enfrentar o aumento abrupto dos preços do petróleo
que importava. A corrida para ampliar unidades e construir
novas usinas é movida por decisões da iniciativa
privada, convicta de que o álcool terá, a partir
de agora, um papel cada vez mais importante como combustível,
no Brasil e no mundo.
A tecnologia dos motores flex fuel veio dar novo fôlego
ao consumo interno de álcool. O carro que pode ser
movido a gasolina, álcool ou uma mistura dos dois combustíveis
foi introduzido no país em março de 2003 e conquistou
rapidamente o consumidor.
Os flex fuels, como se tornaram conhecidos nos Estados Unidos,
têm sensores que reconhecem os teores da mistura e ajustam
automaticamente a operação do motor para as
condições mais favoráveis ao seu uso
- uma tecnologia que agregou inteligência ao motor convencional
à gasolina. Nascida de pesquisas realizadas nos Estados
Unidos, Europa e Japão no final da década de
1980 para superar a falta de infraestrutura de abastecimento
do metanol e etanol, o flex fuel pretendia permitir a expansão
mais rápida e confiável do uso destes combustíveis.
No Brasil, a existência do carro a álcool inibiu
por muito tempo a prática do novo conceito. Mas o definitivo
ingresso do setor sucroalcooleiro no regime de livre mercado
selou o destino da nova tecnologia, incorporando a evidência
de que o álcool, commodity agrícola de produção
sazonal, está sujeita a volatilidades na oferta e no
preço. Além disso, em tempos de permanente e
acirrada competitividade internacional entre os fabricantes
de veículos automotores, o Brasil destaca-se como único
país do planeta onde o flex fuel pode ser testado e
comercializado em larga escala para qualquer perfil econômico
de uso dos dois combustíveis.
Uma solução natural para um país com
logística de distribuição consolidada
por meio de dutos, ferrovias e rodovias e 29.646 postos com
equipamentos dedicados para fornecer etanol, no total de 31.979
estações de abastecimento de combustíveis
espalhadas em todo o seu território continental. Além
de todas as vantagens citadas, os novos veículos resgataram,
por fim, a afeição dos brasileiros pelo etanol,
um combustível que polui menos, melhora o desempenho
e aumenta a vida útil dos automóveis. Afinal,
com o flex fuel, o consumidor decide o combustível
a ser usado, conforme as ofertas do varejo ou sua própria
logística de abastecimento.
O sucesso imediato do veículo flex fuel animou as montadoras
que já fabricam comercialmente esses veículos.
De março de 2003 até março de 2004, foram
produzidas e vendidas cerca de 94 mil unidades ou o triplo
dos carros a álcool postos no mercado brasileiro em
2003. No final do primeiro trimestre de 2004, um dos principais
fabricantes de veículos do país contabilizava
que mais de 35% das suas vendas de veículos do ciclo-Otto
corresponderam aos carros do novomodelo e previa que esse
percentual poderia chegar a 85% até o final desse ano.
Conforme a Anfavea (Associação Nacional dos
Fabricantes de Veículos Automotores), em maio de 2006,
a venda de carros bicombustível no Brasil foi, pela
primeira vez, superior a venda de carros a gasolina, 49,5%
e 43,3% respectivamente.
Os veículos movidos a diesel responderam por 5,2% das
vendas e os impulsionados apenas por álcool, outros
2%. Os especialistas do mercado automotivo têm sido
unânimes ao afirmar que, no Brasil, o carro monocombustível
tem os dias contados.
Um mercado em expansão
Em 2005, o mercado brasileiro
de etanol movimentou US$ 6 bilhões. Em 2010, deve chegar
a US$ 15 bilhões – quase o equivalente ao faturamento
atual do negócio de telefonia celular.
Em menos de um ano, o etanol foi alçado da condição
de
produto tupiniquim, confinado
ao Brasil, à posição de combustível
potencialmente global, em teoria capaz de aliviar de um só
vez dois grandes males do século 21: a escassez do
petróleo e o
efeito estufa. O álcool
entrou na agenda de governantes, empresas de tecnologia e,
principalmente, de investidores e megacorporações
interessadas nas grandes oportunidades que o setor
tende a oferecer daqui para a frente.
Em 2006, o mercado de etanol brasileiro deve receber investimentos
de US$ 9,6 bilhões de dólares, entre construções
de novas usinas, aquisições e expansões.
Mesmo com a atual instabilidade dos mercados financeiros,
o primeiro fundo de private equity criado para usinas, com
patrocínio do banco francês Société
Générale, conseguiu arrecadar mais de US$ 200
milhões em pouco mais de mês. A tendência
é de que feche o ano com US$ 1 bilhão em carteira.
A Votorantim, um dos maiores grupos empresariais do país,
é uma das empresas com atuação mais marcante
no mercado de etanol. Nos últimos três anos,
a empresa da família Ermírio de Moraes investiu
US$ 40 milhões em duas empresas destinadas à
pesquisa de ponta no setor. Até mesmo as petroleiras,
em princípio contrárias ao sucesso do etanol,
já perceberam que não dá para ignorá-lo.
No início de junho, a anglo-holandesa Shell passou
a exportar álcool brasileiro para os Estados Unidos,
o maior mercado mundial. Nos últimos meses, representantes
das tradings japonesas Mitsubishi e Mitsui circulam pelo interior
do país prospectando negócios.
O que está aguçando o apetite de tanta gente
é a projeção de que o mercado internacional
de álcool, hoje ainda modesto, crescerá exponencialmente
nos próximos anos. Nos últimos meses, vem se
consolidando a percepção de que a era do petróleo
barato está perto do fim.
“A aposta é que a cotação se mantenha
elevada daqui para a frente, pois custa caro explorar as reservas
que restaram”, diz Shigeaki Ueki, exministro de Minas
e Energia e consultor na área de petróleo. Além
disso, a indústria automobilística mundial já
aderiu em massa aos veículos bicombustíveis.
Portanto, do ponto de vista tecnológico, as condições
para o sucesso do etanol estão equacionadas. O que
falta, agora, é que mais países adotem o novo
combustível.
O sinal mais vigoroso de que isso pode ocorrer em breve veio
do presidente americano, George W. Bush. Em janeiro passado,
Bush condenou publicamente “o vício americano
pelo petróleo” e passou defender enfaticamente
as energias renováveis. Os americanos são donos
de 40% da frota de veículos do planeta, mas o álcool
responde por apenas 2,5% do mercado local de combustíveis.
Pelos planos do Departamento de Energia dos Estados Unidos,
até 2030 essa participação subirá
para 30%, o que representa o consumo de impressionantes 230
bilhões de litros - ou quase 10 vezes a produção
brasileira de álcool combustível prevista para
este ano. O combustível conta também com o apoio
da oposição. A senadora democrata Hillary Clinton,
virtual candidata à sucessão de Bush, pediu
que o Senado libere US$ 1 bilhão em pesquisas com etanol.
Com tais movimentos, acredita-se que os Estados Unidos levem
outros países a seguir a mesma rota. Afora Suécia,
Austrália e outros pequenos países, o restante
do globo só começou a avaliar com seriedade
o álcool recentemente.
Esse despertar mundial coloca o Brasil à frente da
corrida da energia. E estimula potenciais produtores. Jamaica,
Nigéria, Índia e outros países que cultivam
cana tentam organizar a sua produção inspirados
nos moldes brasileiros. A criação de mercados
pelo mundo é considerada fundamental pelos produtores
locais. A percepção é que, enquanto o
Brasil for quase monopolista no comércio internacional
de álcool, dificilmente será possível
convencer os países desenvolvidos a misturá-lo
à gasolina. “A experiência do petróleo
ensinou que a concentração da produção
de combustível não é boa para os países
consumidores, que se tornam dependentes”, diz Eduardo
Pereira de Carvalho, presidente da União da Agroindústria
Canavieira. “É importante que vários países
fabriquem etanol para que haja segurança de abastecimento.”
Ainda assim, dificilmente algum outro será capaz de
tirar a liderança brasileira nesse campo, pelo menos
no curto prazo. O Brasil tornou-se uma espécie de Meca
na produção em larga escala de combustíveis
renováveis graças a uma perfeita combinação
de clima, extensão territorial e reservas de água.
A produtividade é de longe a maior do mundo. De cada
hectare de cana plantada no país, produzem-se 6.800
litros de álcool. Nos Estados Unidos, hoje o maior
produtor mundial de etanol, o álcool é feito
de milho, e cada hectare da cultura gera 3.200 litros de álcool
- abaixo da metade do rendimento brasileiro. O preço
da produção nacional é igualmente imbatível.
O litro custa cerca de 20 centavos de dólar, ante 47
centavos do álcool de milho americano e 32 centavos
do álcool de cana produzido na Austrália. “A
beleza do processo brasileiro está principalmente na
eficiência ambiental”, diz Plinio Nastari, diretor
da Datagro, consultoria especializada em açúcar
e em álcool. “No Brasil, as máquinas que
fabricam o álcool são movidas à energia
elétrica produzida pela queima do bagaço de
cana, o que reduz os custos. Nos Estados Unidos, o processo
depende da energia gerada do carvão, do óleo
combustível ou do gás natural, o que encarece
o produto final.”
Para proteger os produtores americanos de milho, a importação
do álcool brasileiro é taxada, o que fere sua
competitividade. Hoje há muita pressão pela
derrubada dos impostos. Dois projetos que tramitam no Congresso
americano suspendem a cobrança. Jeb Bush, governador
da Flórida e irmão do presidente, vem fazendo
uma cruzada para derrubar a taxação sobre o
produto brasileiro. Se a mobilização vingar,
o Brasil deve virar um pólo ainda maior de atração
de investidores, o que muitos consideram a senha para a transição
de um setor com ilhas de atraso para a modernidade.
Os produtores brasileiros ainda dominam a fabricação
de álcool no país - e é difícil
prever hoje por quanto tempo essa realidade deve se manter.
Há em operação no Brasil cerca de 350
usinas, a maioria delas controlada por famílias tradicionais,
como Ometto, Junqueira, Balbo, Zillo e Lyra. Apenas 3% desses
negócios estão em mãos de grupos estrangeiros.
Há hoje quase 100 usinas de álcool sendo construídas,
sobretudo, por empresários locais. “Entender
as peculiaridades da produção agrícola
no Brasil não é para qualquer um”, diz
Pedro Mizutani, vice-presidente executivo da Cosan, o maior
grupo privado brasileiro do setor. “Os estrangeiros
têm dificuldade em lidar com a produção
agrícola e de entender as legislações
tributária e trabalhista”, completa. É
por isso que - pelo menos por enquanto - os investidores de
fora têm optado por assumir o controle de usinas, mas
deixar a parte agrícola para os brasileiros, como fez
a Cargill na Cevasa. A multinacional americana ficou com pouco
mais de 60% de participação. O restante ainda
pertence à Canagril, uma sociedade de agricultores
que fornecem a cana.
Quando se olha para o futuro, no entanto, é possível
visualizar um agressivo aumento da participação
dos estrangeiros. “Pelo menos 30% das sondagens que
recebemos de novos projetos de usinas é de estrangeiros”,
diz José Luiz Olivério, vice-presidente de operações
da Dedini, a maior indústria de equipamentos para construção
de usinas de etanol do mundo. “Se os negócios
forem efetivamente fechados, vamos assistir a uma radical
mudança no perfil do setor e no tamanho do mercado.”
O crescente interesse dos estrangeiros já está
produzindo uma superlativa valorização das usinas.
Unidades pequenas, muitas delas com problemas financeiros,
esqueletos tributários e dívidas trabalhistas,
estão sendo avaliadas pelos donos em 50 milhões
de dólares. As maiores e mais produtivas podem ser
cotadas em meio bilhão de dólares.
Pontos fracos do etanol brasileiro
Estima-se que nos próximos cinco anos, a demanda
interna por cana-de-açúcar salte de 240 milhões
de toneladas (70 milhões de ton de açúcar
e 170 milhões de álcool), para algo em torno
de 334 milhões de toneladas (84 milhões de açúcar
e o restante de álcool). Apesar de amplamente satisfatório
para o setor privado, o problemaé preocupante para
o governo, especialmente porque, além da necessidade
de incremento de, praticamente, 100 milhões de toneladas
na produção para atender o mercado doméstico,
a demanda externa também é crescente.
Internacionalmente, os contratos firmados entre a Petrobras
e as companhias petrolíferas da Venezuela e da Nigéria,
somados às expectativas quanto ao mercado japonês
e à consolidação dos investimentos no
reprocessamento no Caribe (exportações para
o mercado americano utilizando a cota destinada aos países
daquela região), podem representar um incremento de
quatro a cinco bilhões de litros de álcool nas
exportações.
Não seria otimismo estimar que a demanda externa deverá
representar a necessidade de incremento de outros 120 milhões
de toneladas de cana. Diferentemente do que deve ocorrer no
mercado doméstico, a maior demanda ocorrerá
no mercado de açúcar (70 milhões de toneladas).
No caso do mercado de álcool, embora o crescimento
deva ser expressivo, a natureza estratégica do produto
deverá retardar as decisões de alguns importantes
atores, como a União Européia, os quais privilegiarão
a estruturação da base produtiva doméstica
antes de recorrer às importações.
De todo modo, ainda que de maneira muito otimista, estima-se
a necessidade de incremento da produção em mais
de 200 milhões de toneladas de cana nos próximos
8 anos. Significa um incremento superior a 50%, que exige
não apenas a elaboração de um plano de
expansão da produção, como também
o equacionamento dos gargalos ligados à infra-estrutura
de transporte e escoamento. A maior parte do álcool
produzido no país deixa a usina em caminhões,
um meio de transporte caro que compromete a rentabilidade
de áreas no interior do país. Também
falta estrutura nos portos.
Parte da solução do problema estaria na construção
de alcooldutos cortando o país. Um projeto da Petrobras
prevê a abertura de um duto que ligaria Goiás
à refinaria de Paulínia, em São Paulo,
passando pelas principais regiões produtoras.
Para o economista Guillaume Le-Fur, diretor da Diapason Management,
empresa suíça especializada em commodities,
a presença de uma companhia como a Petrobras é
estratégica para o mercado brasileiro. “Uma grande
empresa com capital, capaz de competir com as petroleiras,
será decisiva para a expansão do mercado de
álcool”, diz Le-Fur. Os empresários, no
entanto, vêem com desconfiança o avanço
da estatal. A Petrobras monopolizou o mercado interno de gasolina
e de gás natural, e suspeita-se que tente fazer o mesmo
com o álcool.
Outras debilidades do país, como a falta de investimentos
em ciência e tecnologia, tendem a agravar o problema.
Assim como o desenvolvimento de novos tipos de soja levou
a produção de grãos para o cerrado, o
desenvolvimento de novas espécies de cana, resistentes
a pragas e adaptadas a regiões mais áridas,
será fundamental para abrir novos pólos de produção
e elevar a produtividade. A cultura já está
migrando. Novas usinas estão sendo erguidas em Minas
Gerais, Goiás, Paraná e até no Pará.
O trabalho científico, no entanto, está concentrado
em poucas instituições, como o Centro Tecnológico
Canavieiro, algumas universidades federais e as empresas privadas
CanaVialis e Alellyx, mantidas pela Votorantim Novos Negócios
VNN). “Num cenário de 30 anos, os Estados Unidos
tendem a utilizar essa tecnologia para reduzir dramaticamente
o custo de produção”, diz Fernando Reinach,
diretor da VNN. “Se o Brasil não investir em
pesquisa, não conseguirá manter custos competitivos.”
O ponto nevrálgico para o sucesso do Brasil, no entanto,
está nas mãos dos usineiros: garantir a produção
do álcool. Pode parecer um item primário na
sofisticada agenda do setor de energia, mas historicamente
os usineiros locais reduzem a produção de álcool
toda vez que o preço do açúcar sobe -
e neste momento ele nunca esteve tão alto. Essa velha
artimanha para aumentar o faturamento da usina no curto prazo
tende a minar a confiança dos consumidores de outros
países. “O mercado de combustíveis trabalha
com contratos de longo prazo que precisam ser respeitados”,
diz José Ronaldo Rezende, consultor da PricewaterhouseCoopers.
“Temos de colocar o pé no chão para não
fazer besteira”, ressalta João Lyra, presidente
do Grupo João Lyra, um dos mais modernos do setor.