
Origem e regulamentação
O biodiesel é um combustível derivado de fontes
renováveis como óleos vegetais e gorduras animais
que, estimulados por um catalisador, reagem quimicamente com
o álcool ou o metanol.
Ele pode ser obtido por processos químicos, tais como
o craqueamento, a esterificação ou pela transesterificação.
Existem diferentes espécies de oleaginosas no Brasil
capazes de produzir o biodiesel, entre as quais mamona, dendê,
girassol, babaçu, soja e algodão.
Esterificação é o nome dado à
reação que envolve a obtenção
de ésteres (biodiesel) a partir de álcoois e
ácidos graxos ou seus derivados. A transesterificação
consiste na reação química de triglicerídeos
(óleos e gorduras vegetais ou animais, em que os ácidos
graxos formam ésteres com o glicerol) com álcoois
(metanol ou etanol), na presença de um catalisador
(ácido, base ou enzimático), resultando na substituição
do grupo éster do glicerol pelo grupo do etanol ou
metanol.
A glicerina é um subproduto da reação,
que deve ser purificada antes da venda para aumentar a eficiência
econômica do processo. Por fim, o craqueamento catalítico
ou térmico refere-se ao processo que provoca a quebra
de moléculas por aquecimento a altas temperaturas,
formando uma mistura de compostos químicos com propriedades
muito semelhantes às do diesel de petróleo.
No Brasil, as alternativas para a produção de
óleos vegetais são diversas, o que constitui
num dos muitos diferenciais para a estruturação
do programa de produção e uso do biodiesel no
país.
Por se tratar de um país tropical, com dimensões
continentais, o desafio colocado é o do aproveitamento
das potencialidades regionais. Isso é válido
tanto para culturas já tradicionais, como a soja, o
amendoim, o girassol, a mamona e o dendê, quanto para
alternativas novas, como o pinhão manso, o nabo forrageiro,
o pequi, o buriti, a macaúba e uma grande variedade
de oleaginosas a serem exploradas.
Entretanto, embora algumas plantas nativas apresentem bons
resultados em laboratórios, como o pequi, o buriti
e a macaúba, sua produção é extrativista
e não há plantios comerciais que permitam avaliar
com precisão as suas potencialidades. Isso levaria
certo tempo, uma vez que a pesquisa agropecuária nacional
ainda não desenvolveu pesquisas com foco no domínio
dos ciclos botânico e agronômico dessas espécies.
Dentre as várias alternativas, merecem destaque a soja,
cujo óleo representa 90% da produção
brasileira de óleos vegetais, o dendê, o coco
e o girassol, pelo rendimento em óleo, e a mamona,
pela resistência à seca. Na tabela abaixo, são
apresentadas algumas características de culturas oleaginosas
com potencial de uso para fins energéticos.
Processo de obtenção de
biodiesel a partir da transesterificação

O processo de transesterificação pode utilizar,
como fonte de álcool, o metanol ou o etanol. A opção
estrategicamente mais vantajosa para o Brasil é o etanol,
produzido nacionalmente em larga escala, a custos altamente
competitivos. O metanol, além de ser tóxico,
necessita ser importado, ou produzido a partir de gás
natural (carbono fóssil).
Como um produto para fins energético, o biodiesel começou
a ser utilizado pela primeira vez no Brasil em 1975, a partir
da criação do Próóleo (Plano de
Produção de Óleos Vegetais para Fins
Energéticos). Seu objetivo era gerar um excedente de
óleo vegetal capaz de tornar seus custos de produção
competitivos com os do petróleo. Previa-se uma mistura
de 30% de óleo vegetal no óleo diesel, com perspectivas
para sua substituição integral em longo prazo.
Nunca, porém, o biodiesel conseguiu superar a fase
do uso meramente experimental.
Nas últimas duas décadas, houve um avanço
respeitável nas pesquisas relativas ao biocombustível,
assim, além dos vários testes de motores, algumas
plantas piloto começaram a ser construídas em
diferentes cidades. Em 2003, foi lançado o Programa
Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB),
mas apenas em janeiro de 2005, por meio da Lei 11.097, é
que o governo federal, de fato, organizou a cadeia produtiva,
definiu as linhas de financiamento, estruturou a base tecnológica
e editou o marco regulatório do novo combustível.
A Lei 11.097 prevê a mistura obrigatória de 2%
do combustível renovável ao diesel a partir
de 2008, formando o chamado B2, e o aumento desse percentual
para 5% (B5) a partir de 2013. A comercialização
do tipo B2 será responsável pela criação
de uma demanda anual estimada em cerca de um bilhão
de litros de biodiesel puro, denominado B100. A partir de
2013, com o aumento do percentual para 5%, a produção
de biodiesel puro passará para algo em torno de 2,5
bilhões de litros anuais.
A área plantada necessária para atender ao percentual
de mistura de 2% é estimada em 1,5 milhão de
hectares, o que equivale a 1% dos 150 milhões de hectares
plantados e disponíveis para agricultura no Brasil.
Este número não inclui as regiões ocupadas
por pastagens e florestas. As regras permitem a produção
a partir de diferentes oleaginosas e rotas tecnológicas,
possibilitando a participação do agronegócio
e da agricultura familiar.
De acordo com o organograma do PNPB, foi criada uma comissão
executiva interministerial de 15 pastas, subordinada à
Casa Civil da Presidência da República, que tem
a função de implementar e monitorar o programa.
Também foi constituído um grupo gestor, coordenado
pelo Ministério de Minas e Energia, que tem entre as
suas atribuições executar ações
relativas à gestão operacional e administrativa
voltadas para o cumprimento das estratégias e diretrizes
estabelecidas pela comissão interministerial. Por envolver
diversas áreas e para dar suporte em assistência
técnica, o governo criou também a Rede Brasileira
de Tecnologia do Biodiesel (RBTB), formada por entidades de
pesquisas localizadas em 23 estados da federação.
De novembro de 2005 a julho de 2006 deste ano, a Agência
Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
(ANP) realizou quatro leilões eletrônicos de
venda de biodiesel do tipo B100 utilizados na mistura com
o diesel do petróleo. Ao todo, foram negociados 840
milhões de litros, sendo a maior fornecedora a Brasil
Biodiesel. A empresa adquiriu 488 milhões de litros
nos quatro leilões – 58% do total ofertado. Nos
três primeiros leilões, a participação
foi aberta somente a empresas já autorizadas pela ANP
para produzir o combustível vegetal.
Constam hoje nessa relação 10 empresas, que
somam juntas a capacidade estimada de produção
de 280 milhões de litros/ano. No quarto leilão,
a ANP permitiu que a participação de empresas
que ainda estão solicitando autorizações
ao órgão regulador.
Por meio do sistema de leilões, a Petrobras atua como
grande incentivadora do programa de biodiesel do governo federal.
Pelas regras estabelecidas, podem participar dos pregões
qualquer produtor ou importador de diesel com registro na
ANP, desde que tenha mais de 1% do mercado nacional.
A Petrobras e a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap) foram
os únicos compradores dos quatro leilões. No
primeiro, realizado em 23 de novembro de 2005, a estatal arrematou
93,3% do total, e a Refap os 6,7% restantes. No segundo, ocorrido
em 30 de março deste ano, a proporção
foi parecida: 93% e 7%, respectivamente. No terceiro e quarto
leilões, realizados nos dias 11 e 12 de julho, o percentual
foi o mesmo registrado no segundo pregão.
Embora seja controlada pela Petrobras, a refinaria foi orientada
a participar separadamente por ser uma empresa de capital
misto. O pouco interesse das empresas privadas é explicado
pelos preços aceitos pela Petrobras, que variaram entre
R$ 1,799 por litro e R$ 1,919. Para se ter uma idéia,
esses valores ficaram entre 59% e 69% acima do preço
médio nacional do diesel de petróleo cobrado
nas refinarias (excluídos os tributos), que serve de
parâmetro para as plantas de biodiesel negociarem o
B100 direto com as distribuidoras fora do sistema de pregões
da ANP.
A ANP estima que a atual produção brasileira
de biodiesel seja, em média, da ordem de 176 milhões
de litros anuais, sendo que apenas 10 empresas têm autorização
para mproduzir comercialmente – Soyminas (Cássia/MG);
Brasil Biodiesel (Floriano e Teresina/PI); Agropalma (Belém/PA);
Biolix (Rolândia/PR); NUTEC (Fortaleza/CE); Fertibom
(Catanduva/SP); Biocapital (Charqueada/SP); Renobras (Dom
Aquino/MT); IBR (Simões Filho/BA); e Granol (Campinas/SP
e Anápolis/GO) – e cinco estão em processo
de solicitação de autorização
- Adequim (Dom Aquino/MT); Cebracom (São Paulo/SP);
ECOMAT (Cuiabá/MT); Biodiesel Sul (Içara/SC);
e Petrobras (Guamaré/RN).
A relação das empresas produtoras e suas respectivas
capacidades instaladas são apresentadas na tabela ao
lado.
Além de estimular a criação da demanda,
os leilões também desempenham papel social.
De acordo com as regras, só podem participar como vendedoras
as empresas que tiverem o Selo Combustível Social,
concedido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Para obter o selo, as empresas precisam se comprometer a adquirir
um percentual mínimo de suas matérias-primas
de pequenos agricultores em cada uma das cinco regiões
brasileiras.
O maior percentual exigido é no Nordeste e Semi-Árido,
onde a agricultura familiar deve representar pelo menos 50%,
sendo os outros 50% de participação de agricultura
intensiva. Já no Norte, o percentual mínimo
é de 10%. Estão atualmente certificadas 10 empresas
com o Selo Combustível Social.
O regime tributário estruturado para o programa é
um fator que complementa os objetivos do Selo Combustível
Social. Foram estabelecidos três níveis distintos
de desoneração tributária para reduzir
a alíquota máxima de R$ 217,96 por m³ (ou
a cada mil litros produzidos).
No primeiro nível, a isenção de PIS/Cofins
é de 100% para o biodiesel fabricado a partir da mamona
ou da palma produzida nas regiões Norte, Nordeste e
Semi-Árido pela agricultura familiar.
Para o biodiesel fabricado a partir de qualquer matéria-prima
produzida pela agricultura familiar, independentemente da
região, a alíquota efetiva é de R$ 70,02
por m³ (ou 67,9% de redução em relação
à alíquota geral).
Já o biodiesel fabricado a partir da mamona ou da palma
produzida nas regiões Norte, Nordeste e Semi-Árido
pelo agronegócio (ou seja, sem agricultura familiar),
a alíquota é de R$ 151,50 por m³ (ou 30,5%
de redução em relação à
alíquota geral).
Devido aos descontos promovidos pelo regime tributário,
o sistema de leilões pode estar com os dias contados.
Segundo o superintendente de Abastecimento da ANP, Roberto
Ardenghy, a tendência dos preços praticados nos
pregões é convergirem para o do diesel derivado
do petróleo.
Se isso acontecer, argumenta Ardenghy, o sistema já
terá cumprido a sua função. “O
leilão é um artificialismo que não vai
durar para sempre. O estímulo ao aspecto social vai
continuar sendo feito pela questão tributária.
O investimento social proporciona descontos tributários
que representam uma vantagem competitiva muito importante”,
afirma Ardenghy. De qualquer forma, o enquadramento social
de projetos ou empresas produtoras de biodiesel permite acesso
a melhores condições de financiamento com o
BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social) e outras instituições financeiras, além
dar direito de concorrência nos leilões da ANP.
As indústrias produtoras, porém, devem garantir
a compra da matériaprima, com preços pré-estabelecidos,
oferecendo segurança aos agricultores familiares. Há,
ainda, a possibilidade dos agricultores familiares participarem
como sócios ou quotistas das indústrias extratoras
de óleo ou de produção de biodiesel,
seja de forma direta, seja por meio de associações
ou cooperativas de produtores.
Os agricultores familiares também têm acesso
a linhas de crédito do Pronaf (Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar), assim como acesso
à assistência técnica, fornecida pelas
próprias empresas detentoras do Selo Combustível
Social. Na safra 2005-2006, os agricultores familiares que
participam da cadeia produtiva do biodiesel tiveram à
disposição uma linha de crédito adicional
do Pronaf para o cultivo de oleaginosas.
Com isso, o produtor tem uma possibilidade a mais de gerar
renda, sem deixar a atividade principal de plantio de alimentos.
Essa nova linha vai viabilizar a chamada safrinha. Os agricultores
mantêm suas produções de milho e mandioca,
por exemplo, e na safrinha farão o plantio de oleaginosas.
O limite de crédito e as condições do
financiamento seguem as mesmas regras do grupo do Pronaf em
que o agricultor estiver enquadrado.
Estudos desenvolvidos pelo Ministério do Desenvolvimento
Agrário, Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento, Ministério da Integração
Nacional e Ministério das Cidades mostram que, a cada
1% de participação da agricultura familiar no
mercado de biodiesel do país, seria possível
gerar cerca de 45 mil empregos no campo, a um custo médio
de, aproximadamente, R$ 4.900 por emprego. Admitindo-se que,
para cada emprego no campo são gerados três empregos
na cidade, seriam criados 180 mil empregos. Finalmente, é
importante destacar que na agricultura empresarial emprega-se,
em média, um trabalhador para cada 100 hectares cultivados,
enquanto na agricultura familiar a relação é
de 10 hectares por trabalhador.
A cada 1% de participação deste segmento no
mercado de biodiesel, são necessários recursos
da ordem de R$ 220 milhões por ano, os quais proporcionam
acréscimo de renda bruta anual ao redor de R$ 470 milhões.
Ou seja, cada R$ 1 aplicado na agricultura familiar gera R$
2,13 adicionais na renda bruta anual, o que significa que
a renda familiar dobraria com a participação
no mercado de biodiesel.
Os investimentos públicos e privados
no setor
Empresas privadas começam a investir na produção
de biodiesel, com o apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social). Seis projetos, no valor de R$ 256
milhões e com capacidade de produção
de 580 milhões de litros, estão sendo analisados
pelo banco público. Além desses projetos, a
instituição financeira já aprovou três
projetos, no valor total de R$ 86,1 milhões. O maior
volume liberado foi de R$ 42,8 milhões, no dia 30 de
agosto, destinados à empresa Caramuru Alimentos, que
pretende construir de uma usina de biodiesel em Goiás.
O primeiro empréstimo, de R$ 28,7 milhões, foi
para BSBios, maior empresa da América Latina no processamento
de óleos para biodiesel, em Passo Fundo (RS), com capacidade
para produzir 100 milhões de litros. A Bertin, em Lins
(SP), foi a terceira empresa contemplada com o financiamento
do BNDES, no valor de R$ 14,6 milhões. Ela pretende
produzir 115 milhões de litros de biodiesel a partir
do sebo de boi.
Mas não são apenas as empresas privadas que
começam a vislumbrar bons negócios com o novo
combustível. A Petrobras e a BR Distribuidora também
decidiram atuar com força total na produção
de biodiesel.
A Petrobras quer alcançar a produção
de 855 mil metros cúbicos por ano de biodiesel em 2011,
como prevê em seu último Plano de Negócios,
divulgado recentemente. Para isso, já definiu a localização
das três primeiras plantas a serem construídas
em parceria com a iniciativa privada nas cidades de Quixadá
(CE), Candeias (BA) e Montes Claros (MG). Juntas, as três
vão produzir 114 mil metros cúbicos por ano.
A empresa avalia ainda a participação em mais
nove projetos, dos quais três na região Sul.
Uma dessas unidades será, provavelmente, construída
na cidade de São Matheus do Sul, no Paraná,
onde a estatal mantém uma usina de produção
de carvão vegetal extraído de xisto.
Segundo a Petrobras, as unidades no Sul são os projetos
mais avançados. As plantas teriam capacidade para 113
mil metros cúbicos por ano, cada, e teriam como fontes
de suprimento o girassol, a soja e a mamona, além do
nabo forrageiro.
A decisão de participar de toda a cadeia do biodiesel
deve-se a duas razões: a nova estratégia da
petroleira de atuar como uma empresa integrada de energia
e a percepção de que é necessário
um player de peso no mercado para que este se consolide. Embora
o uso do biodiesel seja significativo em alguns países,
sobretudo da comunidade européia (principalmente Alemanha,
França e Itália), sua produção
comercial no Brasil está apenas começando.
Como fornecedora de 98% do diesel consumido no país,
a Petrobras entende que deve atuar como um agente catalisador
de investimentos, contribuindo para o amadurecimento do mercado,
a exemplo do que vem fazendo no setor de gás. Dentro
desta estratégia está o próprio HBio,
o novo combustível criado pela Petrobras, lançado
oficialmente este ano, e sobre o qual falaremos no próximo
capítulo.
A mesma linha de atuação vem sendo seguida pela
subsidiária da estatal, a BR Distribuidora. A empresa
anunciou, em setembro, que boa parte de seus investimentos
de R$ 5,4 bilhões previsto até 2011 será
usado para absorver o novo mercado de biodiesel. Uma prova
disso é o já divulgado investimento de cerca
de R$ 300 milhões em infra-estrutura logística,
particularmente na adequação de 20 bases e terminais
da companhia que realizarão a mistura do biocombustível.
A meta é chegar a 46 unidades e ampliar a capacidade
de movimentação da empresa de 176 mil m³/dia
para 2,3 milhões m³/dia até o fim de 2006.
“A companhia já comercializa o combustível
em mais de 2,2 mil postos e quer iniciar 2007 com as bombas
de B2 em outros 1,4 mil postos, totalizando 3,6 mil, ou seja,
metade da nossa rede”, pontua a presidente da BR, Maria
das Graças Silva Foster.
Lições com os erros do
passado
O consenso entre especialistas que acompanham a implantação
do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel
(PNPB) é de que a iniciativa traz ganhos inegáveis,
sobretudo nos aspectos econômico (pela menor dependência
do petróleo) e ambiental (a produção
de um combustível mais limpo). Há também
o entendimento de que são necessários ajustes
de âmbito tributário, regulatório e logístico
para que o PNPB não tenha a sua viabilidade comprometida
no futuro.
O caso mais lembrado e rico em exemplos do que não
deve ser feito é o do Proálcool. Em relação
à introdução do biodiesel na matriz energética
brasileira, o programa só será economicamente
sustentável se for baseado na diversificação
de culturas de acordo com o tipo de região da área
plantada, e não em apenas um tipo de oleaginosa.
Esta foi uma das principais conclusões do levantamento
elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia
Aplicada (Cepea) – órgão ligado à
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade
de São Paulo (Esalq/USP). Fez se um levantamento de
custos para a produção de biodiesel puro (B100),
levando em consideração diversos tipos de matérias-primas,
e tomou-se como base de preços a safra passada (2004/05).
Para cada região, foi considerado o uso de matérias-primas
compatíveis com suas respectivas vocações
agrícolas.
Desta forma, estudou-se a produção de biodiesel
a partir das seguintes origens vegetais: Região Sul
– soja e girassol; Região Sudeste – soja,
girassol e amendoim; Região Centro-Oeste – soja,
caroço de algodão e girassol; Região
Nordeste – soja, caroço de algodão e mamona;
e Região Norte – soja, mamona e dendê.
Os cálculos foram feitos para plantas industriais de
biodiesel em três escalas de produção
de biodiesel por ano: 10 mil toneladas, 40 mil toneladas e
100 mil toneladas. Independentemente da escala, adota-se para
o estudo unidades industriais integradas, ou seja, que realizam
a extração de óleo e também o
processamento de B100. Outra variável foi o cálculo
de custos levando em consideração duas situações:
a aquisição de matéria-prima no mercado
e a formação de uma cadeia de produção
integrada desde a agricultura de oleaginosas.
Os resultados gerais indicam que o biodiesel produzido a partir
do caroço de algodão, no Nordeste, é
o mais barato do Brasil. O trabalho do Cepea conclui que essa
constatação reforça a hipótese
de que a produção de biodiesel pode ter base
econômica mais consistente se baseada em subprodutos,
como o caroço de algodão (subproduto da pluma),
ou óleos residuais do dendê, da soja, do amendoim,
do girassol e da própria mamona. Por outro lado, contra
essa tese está a necessidade de produção
de biodiesel em grande escala para que atenda a um programa
nacional, como é o caso do PNPB.
Em segundo lugar, quanto ao menor custo, está o B100
extraído da soja na região Centro-Oeste. Em
uma planta de 100 mil toneladas/ano, um litro de biodiesel
teria o custo mínimo de R$ 0,83. Trata-se de um valor
63% menor do que o preço médio do óleo
diesel derivado do petróleo nas refinarias, atualmente
em R$ 1,320.
Quanto ao biodiesel obtido a partir da soja, o menor valor
calculado foi na região Centro-Oeste, considerando
a obtenção de matéria- prima a custo
de produção agrícola (safra de 2004/05),
em usina de 100 mil toneladas anuais de biodiesel. Neste caso,
o custo mínimo do litro foi de R$ 0,83, bem próximo
ao R$ 0,85 por litro registrado na região Norte –
também de soja, mas com a aquisição do
grão a preço de mercado.
A análise da estrutura integrada desde a agricultura
feita pelo Cepea mostra que o Sudeste é viável
para soja e amendoim, o Centro-Oeste para soja, o Nordeste
apenas para mamona, e o Norte apenas para o dendê. Levando
em conta efetivamente a matéria-prima a custo de produção,
o menor custo é obiodiesel a partir de soja na região
Centro-Oeste. Numa planta de 100 mil toneladas/ano, um litro
de biodiesel teria o valor mínimo de venda de R$ 0,83,
considerados os custos e receitas dos subprodutos.
Ao serem comparados os custos do biodiesel a partir de matéria-prima
obtida com produção integrada desde a agricultura
aos valores obtidos com a produção a partir
de oleaginosas adquiridas a preço de mercado, as reduções
são menores. Na média das plantas de 40 mil
toneladas/ano, por exemplo, a diminuição fica
por volta de 4%.
Segundo Mauro Osaki, pesquisador do Cepea que ajudou na elaboração
do estudo, apesar dos resultados gerais favoráveis
em relação ao custo de produção,
é preciso que se faça ainda uma análise
mais profunda sobre os resíduos produzidos a partir
do processamento de cada oleaginosa.
Ele avalia que, pelo menos em um primeiro momento, a soja
deverá ser a principal fonte utilizada para produção
de biodiesel. O problema é que o rendimento do processamento
do grão é de 18% de óleo e 82% de farelo,
que é uma commodity e tem peso importante na balança
comercial brasileira.
Com isso, na medida que for aumentado o processamento dessa
matéria-prima, a tendência é aumentar
a oferta de farelo no mercado, o que derrubaria a sua cotação
no mercado internacional.
“É preciso que se invista em pesquisa para o
melhoramento genético de outras oleaginosas, como foi
feito com a soja, só que envolvendo pinhão manso
e mamona, por exemplo”, observa Osaki.
Outro fator crítico citado pelo pesquisador é
a demanda externa, que poderá exercer pressão
sobre os preços internos, uma vez que tanto os países
vizinhos na América do Sul quanto de outras partes
do mundo estão desenvolvendo seus próprios programas
de introdução de biocombustíveis em suas
matrizes energéticas. Argentina, Estados Unidos, Malásia,
Alemanha, França e Itália já produzem
biodiesel comercialmente e estimulam o desenvolvimento de
escala industrial.
A União Européia produz atualmente mais de 1,35
milhão de toneladas do combustível em cerca
de 40 unidades de produção, o que corresponde
a 90% da produção mundial de biodiesel. “Se
a China pagar dez centavos a mais, por exemplo, os fornecedores
vão vender matéria-prima para lá porque
há um mercado mais promissor. Esse é o risco
que vamos começar a correr: o mundo inteiro querendo
o óleo para fazer a mistura e nós tendo que
atender o mercado doméstico”, avalia Osaki.
Por essa razão, o pesquisador alerta para a necessidade
de o governo fazer o seu dever de casa, e buscar soluções
que garantam o abastecimento, tais como a formação
de estoques. Ele cita como exemplo recente dessa falta de
planejamento o aumento dos preços do álcool
no início do ano devido à entressafra.
“A agricultura familiar, infelizmente, não vai
ter condições de atender toda a escala de produção
que a indústria precisa, tanto para produzir B2 quanto
o B5. Não temos um plano estruturado para falar que
a agricultura familiar tem estrutura de escoamento”,
avalia Osaki, que defende a isenção de impostos
como um incentivo de curto prazo.
O pesquisador Luciano Basto, do Instituto Virtual Internacional
de Mudanças Globais da Coppe/UFRJ, defende como solução
de curto prazo para atendimento da demanda o aproveitamento
de resíduos, como, por exemplo, as borras oriundas
do refino dos óleos vegetais já processados
no Brasil para fins alimentícios. Ele lembra que a
Coppe já detém tecnologia para esse processo
e tem uma variante aplicada pela planta da Agropalma, em Belém
(PA), que produz biodiesel a partir do bagaço da palma.
A vantagem desse sistema, pontua o pesquisador, é que
se evitaria o comprometimento de preços de itens como
o farelo da soja no mercado internacional, devido ao aumento
da oferta. “O potencial, hoje, de sebos, ácidos
graxos, borras, mais esgoto, mais óleo de fritura soma
1,5 bilhão de litros por ano, a um custo da ordem de
R$ 1,05, sem imposto”, avalia Basto, que, assim como
Mauro Osaki, defende a isenção de impostos como
forma de incentivo ao programa de biodiesel.
O cálculo do impacto tributário sobre a produção
de B100 foi objeto de análise na segunda parte do estudo
feito pelo Cepea, que ficou sob responsabilidade do Pólo
de Biocombustíveis (Polobio) da Esalq/USP. Segundo
o coordenador do Polobio, Weber Amaral, mesmo com os incentivos
tributários estabelecidos pelo programa lançado
pelo governo, a partir da estruturação da agricultura
familiar, a carga tributária pode variar entre 28%
e 32%, incluindo PIS/Cofins e o recolhimento de ICMS nos estados.
O modelo de isenção a partir do incentivo de
mamona e palma é motivo de crítica por Amaral,
uma vez que o plantio dessas duas oleaginosas só é
viável em determinadas regiões. “Por conta
dessa assimetria, acaba havendo um desestímulo ao investimento
na indústria de biodiesel, porque, para se atender
a todas essas condições de isenção,
haveria uma concentração de toda a produção
no Nordeste, que não é competitivo para essas
duas culturas.”
A tributação de ICMS também é
criticada pelo coordenador do Polobio, uma vez que ainda não
existe um entendimento claro sobre a maneira de incidência
do imposto estadual. “Se a matéria-prima é
vendida e processada no mesmo estado, não incide ICMS
sobre ela. Agora, não se sabe ainda de que forma deve
ser a tributação sobre o óleo que é
vendido pela planta, porque não se sabe se ele é
tratado como aditivo ou como combustível. Ainda não
existe jurisprudência sobre isso.”
Produção em expansão
O mercado brasileiro de biodiesel dispõe atualmente
de 26 projetos de plantas produtoras em fase de regularização
e projeto. Somadas às 10 unidades já autorizadas
pela Agência Nacionaldo Petróleo, Gás
Natural e Biocombustíveis (ANP), verifica-se que a
capacidade anual de produção no país
poderá totalizar 1,12 bilhão de litros de biodiesel
puro (B100) nos próximos anos. Esse volume é
pouco superior à demanda do combustível prevista
pelo governo federal a partir de 2008, quando a adição
de 2% de B100 no diesel do petróleo aqui comercializado
passa a ser obrigatória.
A maior capacidade autorizada pela ANP é da Brasil
Biodiesel, cuja planta localizada em Floriano (PI), está
preparada para produzir 27 milhões de litros anuais,
além de uma unidade-piloto em Teresina (PI), com licença
para 6 milhões de litros anuais. Constituída
a princípio com capital 100% brasileiro, a Brasil Biodiesel
tem hoje entre seus acionistas um fundo de capitaleuropeu,
representado pela EcoGreen Solutions, que detém 45%
do capital votante da empresa. Ela respondeu pelo maior volume
vendido nos quatro leilões promovidos pela ANP –
448 milhões de litros (58% do total).
O empreendimento conta com 30 mil famílias trabalhando
em tempo integral em todos os estados do Nordeste, envolvidas
no cultivo da mamona, que é fornecida à unidade
de Floriano. O presidente da Brasil Biodiesel, Nelson Silveira,
afirma que a opção pela agricultura familiar
da mamona foi uma decisão estratégica para evitar
a competição com o mercado alimentar. Porém,
para que todas as necessidades de processamento sejam atendidas,
parte da produção também é oriunda
da agricultura mecanizada.
Com um rendimento estimado em 1.500 quilos por hectare, a
mamona costuma render 47% de óleo após o processamento.
O farelo, que não tem utilidade comercial, ou é
utilizado como adubo ou na queima para geração
de energia que alimenta a planta de produção.
Segundo Silveira, a formação da cadeia integrada
com agricultura familiar é feita desde a capacitação
das lideranças das comunidades envolvidas até
a assistência técnica, formada hoje por 350 funcionários,
somente no Nordeste. “Possuímos termos de cooperação
assinados com quase todas as federações de trabalhadores
da agricultura e com a Contag (Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). É um projeto
calcado notadamente em cima da agricultura familiar.”
O executivo cita como exemplo entre os maiores projetos da
Brasil Biodiesel o de Canto do Buriti (PI), que envolve 700
famílias instaladas em uma área de oito mil
hectares. Após o término dos contratos de dez
anos assinados pelos agricultores, a propriedade é
repassada com todas as benfeitorias implementadas.
Entre as empresas que aguardam autorização do
órgão regulador para ampliação
da produção de B100, a Brasil Biodiesel é
a que tem o projeto mais ambicioso, com mais cinco unidades.
As plantas estão localizadas em Crateús (CE),
Iraquara (BA), Rosário do Sul (RS), Porto Nacional
(TO) e Porto de Itaqui (MA), que, juntas, podem produzir 200
milhões de litros anuais.
Desta vez, o objetivo é diversificar a cultura de oleaginosas
que, além da mamona, abrangerá caroço
de algodão e girassol. Está incluído
nos planos o aproveitamento das bases instaladas da soja nessas
regiões, dependendo da cotação da commodity
no mercado internacional. Silveira explica que a decisão
pelas proporções de cultivo de cada vegetal
vai depender também da possibilidade de escoamento
dos subprodutos.
O investimento total estimado nesses novos empreendimentos
é de R$ 300 milhões, e inclui tanto a construção
das plantas de processamento
quanto a estruturação da cadeia agrícola.
“A base agrícola é intensiva em capital
de giro, de mais de R$ 100 a R$ 150 milhões. Mas é
um esforço temporário, porque, na medida que
gera caixa, vai retirando esse esforço. Não
pode ser encarado como investimento. O grande esforço
é comprar uma safra e utilizá-la nos 12 meses
seguintes.”
Com essa ampliação da base agrícola e
a conclusão da construção das novas plantas,
Nelson Silveira afirma que a Brasil Biodiesel terá
capacidade para ofertar 600 milhões de litros nos próximos
leilões promovidos pela ANP.
A paraense Agropalma espera que os próximos leilões
de biodiesel resultem na ampliação do uso da
capacidade de sua planta, localizada em Belém (PA).
Da capacidade total de produção de 20 milhões
de litros, a empresa produz apenas oito milhões. Nos
quatro leilões de biodiesel já realizados pela
ANP, a Agropalma conseguiu vender 7,2 milhões de litros,
a preços que variaram entre R$ 1,80 e R$ 1,90.
Fundada em 1982 e com faturamento da ordem de R$ 400 milhões,
a Agropalma constituiu-se no maior produtor de óleo
de palma da América Latina, dominando todo o ciclo
de produção – da semente ao óleo
refinado, gorduras vegetais e margarina. O biodiesel representa
apenas 2% do negócio do grupo, mas faz parte de uma
estratégia de aproveitamento dos resíduos obtidos
com as suas atividades principais.
Para isso, investiu US$ 1,5 milhão na construção
da planta de processamento, além de US$ 180 milhões
na plantação, que abrange uma pequena parte
dos 40 mil hectares, que atende a todos os negócios.
A implantação da cadeia de produção
de matéria prima começou em 2003 e envolve a
atividade de 150 famílias, instaladas em uma área
de 1.500 hectares nas proximidades do município
de Moju (PA).
As terras foram cedidas pelo governo do Estado do Pará
e o treinamento dos trabalhadores ficou sob responsabilidade
da prefeitura local. A Agropalma doou as mudas, preparou toda
a infra-estrutura para o plantio, fez o plantio, dá
a assistência técnica e garante a compra a preços
internacionais, pela bolsa da Roterdã. “Somos
uma empresa verticalizada.
Produzimos desde a muda, plantamos a muda, colhemos os cachos,
produzimos o óleo bruto que se leva para outra indústria
em Belém, onde refinamos esse óleo para transformar
em gordura vegetal, insumos de cosméticos e também
para a nossa indústria de margarina.
Durante esse refino há uma perda (um ácido graxo,
um resíduo que dá cor, acidez e odor ao óleo
vegetal). É com esse resíduo que fazemos o biodiesel”,
explica Marcello Brito, diretor comercial da Agropalma.
Como a palma demora de três a quatro anos para começar
a produzir, o Banco da Amazônia (Basa) financia esses
assentados com o pagamento de um salário mínimo
por mês, além de fornecer capital para aquisição
de insumos. Quando começar a colheita, a Agropalma
paga diretamente ao Basa, que repassa 80% do valor às
contas em nome dos agricultores. Os 20% restantes correspondem
à remuneração do banco. “É
um sistema que tem funcionado muito bem, e esse pessoal acaba
obtendo uma renda que nunca esperavam ter, mas isso depende
muito do esforço de cada parceiro.”
A mineira Soyminas, que vendeu 8,7 milhões de litros
no primeiro leilão da ANP estuda novas possibilidades
de expansão. Para cumprir esse contrato, a empresa
conta com a planta de Cássia (MG), autorizada para
produzir 12 milhões de litros anuais. O sistema de
agricultura familiar corresponde a 30% do fornecimento de
matéria-prima, produzida a partir do nabo forrageiro
e da semente de girassol, sendo o restante obtido a partir
de óleo vegetal comprado no mercado. Segundo o diretor
geral da Soyminas, Artur Augusto Alves, está sendo
estudada a construção de uma nova planta no
estado de São Paulo, perto da divisa com Minas Gerais,
e esta deverá explorar, além das duas oleaginosas
já utilizadas, o pinhão manso.
Dilemas de um mercado
As dificuldades encontradas para a implantação
do programa de biodiesel na logística da distribuição
levaram a Agência Nacional do Petróleo, Gás
Natural e Biocombustíveis (ANP) a instalar, no início
de maio, um grupo de trabalho com a função de
elaborar soluções para o setor. A iniciativa,
com duração prevista de 120 dias, conta com
a participação de representantes de distribuidoras,
sindicatos e entidades representativas.
Uma decisão já aprovada por seus integrantes
é a flexibilização da regra que obriga
a estruturação de uma cadeia logística
completamente separada para o B2 – a mistura de óleo
diesel do petróleo com 2% de biodiesel. Essa exigência
obrigava as empresas de distribuição e postos
a investirem em caminhões-tanques e bombas exclusivos
para o combustível. A regra tinha o objetivo de evitar
que, ao se transportar o B2 em um caminhão-tanque (usado
para carregar diesel comum), a mistura ficasse comprometida
com algum resíduo do combustível derivado do
petróleo no reservatório. Desta forma, a proporção
de 2% seria reduzida e estaria configurada a adulteração
do combustível.
Para garantir mais agilidade ao escoamento do produto, a ANP
lançou um ofício circular permitindo às
empresas que usem a mesma estrutura logística utilizada
para o diesel comum para o biodiesel. Porém, não
será permitido às distribuidoras e aos postos
comercializarem esse produto com a marca B2, porque, na prática,
a mistura será de até 2%. O superintendente
de Abastecimento da ANP, Roberto Ardenghy, avalia que a medida
é um importante passo para a implantação
do programa na ponta de distribuição, e servirá
como estímulo à demanda pelo produto.
As paralisações de plantas produtores de biodiesel
puro (B100) são uma das faces mais visíveis
das dificuldades enfrentadas na estocagem e distribuição.
No início de junho, a Petrobras adiou para o dia 12
o recebimento de 6,4 milhões de litros de biodiesel,
dos 14 milhões contratados para entrega até
30 de maio. Até então, só 7,6 milhões
de litros estavam nas mãos da estatal. Das quatro empresas
de biodiesel selecionadas no leilão da ANP em novembro
– Agropalma, Brasil Biodiesel, Granol e Soyminas –,
apenas uma teria conseguido atender ao pedido contratado na
primeira entrega.
De acordo com a estatal, as fornecedoras tiveram problemas
com a produção e havia pouco combustível
disponível no mercado. As empresas refutam, afirmando
que a estatal enfrenta problemas logísticos, e reclamam
de paralisações devido a estoques abarrotados
do combustível.
Entre as produtoras que venderam B100 para a Petrobras e para
a Revap, no primeiro leilão organizado pela ANP, em
23 de novembro, a Granol foi a única que não
teve esse problema, uma vez que ainda não obteve autorização
do órgão regulador para produção
e comercialização de biocombustível.
Segundo a diretora financeira da Granol, Paula Ferreira, a
ANP já deu o aval técnico para a concessão
da licença, mas falta a chancela do órgão
– ela só pode ser concedida pela diretoria.
Ocorre que as licenças são dadas mediante a
assinatura de três diretores técnicos da instituição
(de um quadro com cinco diretores), mas, desde março,
a agência estava sem quórum mínimo, somente
alcançado em 23 de junho, com a posse de Nelson Narciso.
As demais produtoras – Brasil Biodiesel, Soyminas e
Agropalma – alegam que tiveram de fazer interrupções
temporárias de suas atividades porque a Petrobras Distribuidora,
que adquiriu o biodiesel da empresa mãe, ficando responsável
pelo transporte do produto até os postos, não
fez um número de retiradas que atendesse às
expectativas dos produtores.
A Petrobras Distribuidora, por sua vez, assegura que houve
problemas pontuais na retirada do produto junto à Agropalma,
lembrando que tem a maior infra-estrutura logística
do país na área de distribuição,
sendo responsável pela comercialização
de 40 bilhões de litros de diesel por ano.
O diretor geral da Soyminas, Artur Augusto Alves, revela que
ficou com a sua planta de Cássia (MG) parada dois meses,
entre abril e junho, porque o B100 não era retirado.
“Isso [as paralisações] complica para
nós que produzimos, porque se você pára,
rompe o contrato com o fornecedor de matéria-prima,
que é basicamente o pequeno agricultor. Só que
o pequeno agricultor não pode continuar esperando e
tem que receber. E aí ele vende para outro e ficamos
sem matéria-prima”, explica Alves, sustentando
que essa situação acaba favorecendo as grandes
fornecedoras multinacionais.
O caso mais recente de suspensão de planta de processamento
foi o da Agropalma, que ficou pouco mais de uma semana, em
meados de junho, sem produzir porque a Petrobras Distribuidora
não foi buscar o produto na planta da empresa, em Belém
(PA). O diretor comercial da empresa, Marcello Brito, salienta
que foi a primeira vez que ocorreu esse tipo de problema.
Tanto que, no início de junho, ele havia dito que a
empresa, vencedora do primeiro leilão, tinha uma relação
que a favorecia, uma vez que fornece biodiesel para a Petrobras
Distribuidora desde agosto de 2005. “A unidade deles
próxima à nossa fábrica em Belém
já estava preparada para receber o biodiesel”,
comentou, na época. Em relação ao ocorrido
depois, ele diz ter recebido informações de
que o terminal da distribuidora, em Belém, estava com
sua capacidade de armazenamento de biodiesel esgotada.
Retomadas as atividades da unidade, a preocupação
de Brito é em relação ao cumprimento
do contrato para compensar o tempo
de paralisação.
De acordo com o cronograma estabelecido no primeiro leilão,
as entregas devem ser feitas até o final deste ano.
“Corremos o risco de chegarmos ao final do ano quebrando
o contrato porque não entregamos o volume que foi acertado.
E aí, quem vai ser penalizado? Nós que não
entregamos, ou eles que não retiraram?”, questiona.