Entrevistas

 

Bertha Becker

Como distribuir riquezas se não tem produção?

Data: 24/11/2009

Por: Aldrey Riechel, Amazonia.org.br

 

A pesquisadora, geógrafa e historiadora Bertha Becker é referencia nos temas relacionados à Amazônia.  Possui diversas pesquisas na área e um grande currículo em que consta sua atuação na região. Bertha não poderia faltar ao evento que aconteceu semana passada em São Paulo, para discutir os "Desafios e Perspectivas para a Integração Regional". Todos disputaram alguns minutos de atenção da especialista: de jovens estudantes a jornalistas e pesquisadores  que estão mais acostumados com o tema.

 

Bertha já se habituou à imprensa e sabe conduzir uma entrevista.  As perguntas planejadas de nada adiantam: ela sempre responde antes que se chegue à interrogação final. Durante sua fala, faz novas perguntas, deixando as mais difíceis para os jornalistas: "Porque que nós queremos só vender carbono e ainda com a bolsa Chicago?".

 

Se tentar mudar o tema antes da hora, ela responde: "espera.  Tem mais".  E quando finalmente se dá por satisfeita, também indica que é hora da próxima pergunta.  "Sim agora a outra questão". E dessa mesma forma ela sabe terminar a entrevista quando se cansa de responder.  Com seu jeito meigo e quase nada sutil diz "Ta bom?".  Mas o efeito não dura muito tempo.  Em seguida aparecem outras pessoas que estavam na fila para os minutos de sua atenção.

 

Ao conversar com o site Amazonia.org.br, Bertha falou sobre sua proposta de bioprodução, que contepla a instalação de centros de produção em alguns locais da Amazônia.  Dessa forma não haveria isolamento, e haveria produção de mercadorias não madeireiras, utilizando tecnologia avançada para transformação de matérias-primas florestais por uma cadeia completa.  Esses centros se chamariam, segundo Bertha, "cidades de bioprodução, pesquisa e serviços ambientais".

 

Veja aqui a opinião da pesquisadora sobre o tema.

 

- Como seria possível conseguir integrar uma região que é tão diversa como a Amazônia?

 

Bertha Becker - A minha proposta é unidade na diversidade.  É o meu mote.  Por quê?  Porque é bom.  Você tem maior conectividade, é preciso ter maior informação, redes de informação. Redes de cidades são cruciais pra você ampliar a conectividade sem destruir a natureza.  Então, por que unidade na diversidade?  Unidade porque nós temos que romper essa trajetória da Amazônia e do continente, uma trajetória dependente de um passado colonial. 

 

Um passado colonial que trouxe exportação de matéria-prima sem valor agregado, doenças, latifúndios, trabalho escravo ou quase escravo.  Isso comparado com um quadro institucional que não ajuda a inovação e a mobilização social.  Então essa situação é perpetuada com o passar dos séculos, houve pequenas mudanças, mas no sentido profundo é o mesmo.


 

Enquanto a gente não acabar com isso, a gente não se desenvolve, e não se desenvolvendo o risco da integração é acentuar ainda mais essa trajetória passada.  Qual é o desafio?  É acabar com as desigualdades socioeconômicas, essa herança do passado, e ao mesmo tempo respeitar as diferenças culturais.  Esse é o desafio.

 

- E é necessária também uma ligação física...

 

Bertha - Precisa!  A grande crítica dos ambientalistas é em cima das estradas, mas eu não.  O mais importante é isso que eu falei.  Daí vem a questão ambiental.  Claro que não pode ficar só fazendo estrada, já temos experiências de rodovias que arrebentam com a floresta e tudo mais, então você tem como grande alternativa a circulação fluvial.  São maravilhosos os rios da Amazônia que até hoje não tem equipamento decente pra permitir a circulação.  Primeira coisa: equipamento moderno, do século XXI, pra fazer essa circulação do rio.  Apoiada pela circulação aeroviária.  Aquilo que se chama de intermodalidade, que é o que mais se ajusta com a região: a intermodalidade é quando você usa rios, pequenos trechos de rodovias, quando essenciais.  Intermodalidade, ajustada às condições naturais.

 

- A senhora falou, das "biocidades", que....

 

Bertha - Bioprodução!  Cidades que estão soltas no tempo, fantasmas, vivem só do funcionalismo público, como Lábrea, Humaitá... Humaitá está até um pouco mais humanizada, Labréa e outras que escolhi, fiz uma rede.  Elas devem ser equipadas para ter centros de pesquisas e centros industriais de produção extrativista não madeireira, florestal e serviços ambientais.  Elas têm que ser equipadas para serem centros de pesquisa, e centros de indústria, da produção extrativista.

 

- E a senhora acha que esses centros de produção...

 

Bertha  - Como é que você vai distribuir riquezas se não tem produção?  Agora a coisa mais importante é que tipo de produção.  É uma produção adequada, regional e que não destrua o meio ambiente.  Mas é produção!  Nós vivemos em um sistema capitalista!  Vai acabar com a produção?  Qual é cara-pálida!

 

- E a senhora acha que esses centros de produção não atrairiam mais pessoas e gerariam...

 

Bertha  - Não!  Acho que tudo tem que ser planejado.  Não é assim!  Eu estou tendo uma idéia!  A idéia de um modelo que tem que ser ainda destrinchando, colaborado, tem que planejar.  Não é?  Porque é um esqueleto, cérebro...

 

 

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