
Fonte: Paula Scheidt, Carbo
Data: 22/10/2008 00:00
Alertas sobre a urgência do problema climático não são hoje o bastante para livrar o planeta da dependência aos combustíveis fósseis, por isso tecnologias como a Captura e o Armazenamento de Carbono (CCS) surgem como uma saída para reduzir o aquecimento global. A tecnologia CCS consiste na captura de gases do efeito estufa (GEE) nas fontes emissoras, como usinas energéticas, e o armazenamento no subsolo, em poços de petróleo desativados ou camadas geológicas. Alguns especialistas dizem que o CCS pode conter 1/3 de todas as emissões de dióxido de carbono (CO2) presentes na atmosfera, em um mercado que poderá representar US$150 bilhões no futuro.
O tema causa polêmica e está no centro das discussões do pacote energético da União Européia, que está na pauta da reunião de hoje do Conselho Ambiental da União Européia em Bruxelas, na Bélgica. A proposta é criar um fundo com recursos vindos do esquema de comércio e emissão europeu (EU ETS) para investir em 15 projetos experimentais de CCS, que entrariam em funcionamento até 2015.
O pacote inclui ainda obrigações de uso de energias renováveis e metas de redução de emissões em 20% em 2020.
Para o professor da COPPE/UFRJ, Roberto Schaeffer, doutor em planejamento energético, não será possível reduzir as emissões de GEE rápido o suficiente para evitar as mudanças climáticas.
"Por isso, o CCS pode ser um paliativo interessante, junto a outras coisas”, comenta.
Schaeffer define o CCS como um ‘mal necessário’, uma vez que o mundo não irá se adaptar a um novo padrão energético no ritmo que se desejaria. Nas refinarias de petróleo, onde há um grande uso de energia, esta tecnologia poderia reduzir as emissões em 10%, exemplifica o especialista.
Um relatório divulgado pela consultoria norte-americana McKinsey and Co. no final de setembro afirma que a aplicação de CCS poderia se tornar viável economicamente sem a ajuda de recursos públicos em 2030 se fossem reduzidos os obstáculos a esta tecnologia e as indústrias poluidoras fossem forçados a pagar mais para emitir CO2 em esquemas ‘cap and trade’ (metas e comércio).
“Quase todos os países e até mesmo as grandes empresas de petróleo pesquisam, hoje, novas formas de energia, que sejam mais limpas e substituam os combustíveis fósseis. Mas a realidade é que o mundo ainda é profundamente dependente do petróleo”, afirma a Petrobras por meio da Assessoria de Imprensa.
O CCS está nos planos estratégicos da estatal brasileira, que desde 2006 investe na Rede Temática de Seqüestro de Carbono e Mudanças Climáticas, formada por 18 instituições de pesquisa nacionais, e criou o Centro de Excelência em Pesquisas sobre o Armazenamento do Carbono para a indústria de petróleo (Cepac), sediado no campus da PUC do Rio Grande do Sul. A meta da empresa é ser líder nesta tecnologia.
“A Petrobras acredita que a atenção a tecnologias de seqüestro de carbono é fundamental para a solução das questões relativas à mudança climática”, declara a Assessoria de Imprensa da estatal.
Riscos e custos
A defesa feita por alguns políticos europeus e fornecedoras de energia, contudo, está longe de ser uma posição unânime. O diretor-presidente do Instituto para o Desenvolvimento das Energias Renováveis na América Latina (Ideal) Mauro Passos olha com ressalvas o CCS e destaca o alto custo da tecnologia.
“Acho que é um remendo a uma situação que nós criamos e talvez não estejamos querendo ir de imediato para outra direção”, comenta.
Passos afirma que o ponto de partida do debate está equivocado, pois se discute uma maneira de minimizar o impacto da queima do carvão, enquanto a questão crucial deveria ser queimar ou não carvão.
“Eu sinceramente não vejo isso como um bom caminho”, opina.
O Greenpeace e outras entidades também já divulgaram relatórios condenando esta solução para o problema climático.
“O CCS não funcionará a tempo para evitar os perigos das mudanças climáticas”, traz o documento “Uma Falsa Esperança: Por que a captura e armazenamento de carbono não pode salvar o clima” .
Segundo a ONG, o uso de CCS em grande escala não deve ser esperado para antes de 2030 e, as emissões de gases do efeito estufa devem começar a cair em 2015 para evitar as conseqüências climáticas mais graves. O Greenpeace afirma ainda que o CCS desperdiça energia.
“A tecnologia usa entre 10% a 40% da energia produzida nas usinas energéticas. A adoção em larga escala acabaria com os ganhos de eficiência dos últimos 50 anos e aumentaria o consumo de recursos em 1/3”, ressalta no relatório.
Outro ponto levantado pela instituição é o risco que esta tecnologia representa.
“A segurança e permanência do armazenamento de CO2 não podem ser garantidos. Mesmo um pequeno vazamento poderia prejudicar qualquer esforço de mitigação climática”, informa o documento.
Segundo o Greenpeace, o correto seria investir em fontes renováveis de energia e consumo eficiente.
A lista de argumentos contra e a favor é longa e, entre defensores, lobistas, críticos e observadores internacionais, o debate parece estar longe do fim. Contudo, no meio de tanta incerteza, uma coisa parece estar certa. Não será nada fácil acabar com o vício a fonte que fez o mundo crescer nos últimos 150 anos.
“Até 2050, o mundo não deixará de usar petróleo”, conclui enfático o professor Schaeffer.
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