
Data: 01/12/2009 00:44
Por: Redação TN / Greenpeace
Centenas de peixes mortos se acumulam em um filete de água no leito do rio. A cena faz lembrar a seca na Amazônia em 2005. Em contraste com a cheia recorde que atingiu a região, a vazante intensa deixou o rio Manaquiri seco e matou milhares de peixes. Semana passada, ativistas do Greenpeace visitaram e documentaram o fenômeno e a visão é preocupante (clique aqui para ver as fotos). Nas imagens aéreas, canoas e barcos ficam presos na areia. Milhares de peixes mortos causam mau cheiro e a paisagem se assemelha a um lixão. A população que vive na região sofre para se deslocar e sem a navegação, o acesso água potável e comida fica restrito.
“A mortandade de peixes é normal na seca. Mas ela pode ser um fato local ou o início de um grande problema se não chover até dezembro. Imaginava-se que o rio não fosse baixar tanto por conta da cheia histórica deste ano”, afirma Jansen Zuanon, coordenador de pesquisa em biologia aquática do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
De acordo com dados da Superintendência Estadual de Navegação Portos e Hidrovias (SNPH), na última semana o nível do rio Negro já baixou mais de 30 cm, e está em 16,19 m. Desde julho, o rio já baixou mais de 13 metros, o equivalente a um prédio de mais de quatro andares.
“O nível fluviométrico crítico para um evento extremo de seca em Manaus situa-se abaixo de 16 metros e se reflete para a região de Manaquiri”, diz Naziano Filizola da Rede Estadual de Meteorologia e Hidrologia da Universidade Estadual do Amazonas.
Não há dúvidas de que o principal culpado tanto pela longa estiagem na região norte amazônica como pelas chuvas intensas no sul e sudeste do Brasil é o El Niño. A intensidade do fenômeno este ano está entre moderada e intensa. O El Niño produz um padrão de inundações e secas ao redor do mundo e no Brasil causa secas na Amazônia, inundações em Santa Catarina.
“A seca deste ano, até agora, está associada a uma variabilidade natural. Com as mudanças climáticas, esses fenômenos podem se tornar mais intensos, como indicam os modelos climáticos, mas ainda é muito cedo para associá-lo diretamente ao aquecimento global, apesar dos dados desta década mostrarem um aumento da freqüência destes eventos extremos”, aponta Antônio Manzi, pesquisador do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA, em inglês).
As modelagens climáticas apontam que o futuro da Amazônia será mais quente e mais seco se não estabilizarmos as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs). No entanto, ainda há muita discussão sobre os resultados de diferentes modelos climáticos quando se trata da Amazônia. Outros estimam uma perda gradual, mas ainda assim significativa. Outras mostram que mais de 83% da floresta Amazônica serão destruídas até 2100. Um dos mais complexos modelos prevê que a floresta vai desaparecer completamente.
Os estudos que apontam para cenários mais secos e quentes aparecem mais intensamente em simulações do clima que usam modelos que relacionam o aquecimento da água no oceano Pacífico e a ocorrência do El Niño. No entanto, ninguém arrisca afirmar que este evento do Rio Manaquiri tem uma ligação direta com as mudanças climáticas, mas isso não significa que ela não exista.
“Não dá pra afirmar, por exemplo, que uma pessoa que fuma, ficou com câncer por conta do cigarro. É difícil comprovar, mas ninguém nega que fumar cigarro aumenta a probabilidade de ter câncer”, compara Philip Fearnside, do Departamento de Ecologia do INPA. “Enchente, seca, mortandade de peixes sempre existiram, mas a freqüência destes fenômenos é que está aumentando. Devemos tirar uma lição disso e não esconder debaixo do tapete. Se não limitarmos a emissão de GEEs a tendência é que estes eventos extremos aumentem”.
O desmatamento das florestas tropicais contribui com 20% das emissões globais de gases do efeito estufa. Apesar de ter caído em anos recentes, a destruição da Amazônia responde por 52% das emissões nacionais, colocando a Brasil na posição de 4º maior emissor de gases estufa – o que aumenta a responsabilidade do país para com o futuro do planeta.
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