
Data: 05/03/2010 10:35
Por: Pete Harrison, Reuters
O biodiesel e outros combustíveis ‘verdes’ que os europeus colocam em seus automóveis podem ter conseqüências inesperadas sobre as florestas tropicais e terras úmidas, demonstram relatórios da União Européia (UE). A UE pretende que seus 500 milhões de cidadãos obtenham cerca de um décimo dos combustíveis rodoviários de fontes renováveis, como os biocombustíveis, até 2020, mas alguns oficiais europeus querem que a meta seja reduzida em uma revisão em um período de quatro anos. Exercícios de modelagem estão começando a demonstrar impactos indesejados se espalhando ao longo do planeta através dos mercados de commodities.
“A simulação dos efeitos das políticas de biocombustíveis da UE implicam em um choque considerável sobre o mercado de commodities agrícolas”, alerta a minuta de um relatório produzido para aconselhar legisladores. “O apoio atual e futuro aos biocombustíveis...deve acelerar a expansão de terras cultivadas, particularmente na América Latina e Ásia”, ressalta outro, um dos 116 documentos liberados para a Reuters sob a legislação de liberdade da informação. São esperados ainda outros. “Carrega o risco de danos ambientais significativos e dificilmente reversíveis”, adiciona a minuta.
Os alertas não são novos. Ambientalistas têm feito há anos. Mas os estudos e e-mails demonstram pela primeira vez que os legisladores europeus também estão seriamente preocupados com o impacto sobre as florestas tropicais, áreas úmidas e savana. Entretanto, eles estão lutando para quantificar o provável dano.
“A grande quantidade de documentos e seu conteúdo detalhado demonstram que a Comissão tem considerado os impactos indiretos da mudança de uso da terra muito seriamente”, comentou a porta-voz do Comissário Europeu de Energia Guenther Oettinger. “Não existe uma resposta definitiva e oficial sobre o tamanho e caráter deste assunto neste momento”, ela completou.
Lobistas do setor de bioetanol tem aproveitado a confusão para pedir aos legisladores que rejeitem o conceito. Enquanto isso, na Comissão Européia, que instiga as políticas do bloco, oficiais estão divididos sobre a decisão de continuar com a meta que foi estabelecida em 2008 e já incentivou investimentos globais de bilhões de dólares. Uma carta interna de um oficial da agricultura alerta que levar em conta a pegada de carbono completa dos biocombustíveis pode “matar” um setor europeu equivalente a € 5 bilhões ao ano (US$ 6,8 bilhões).
Ambientalistas alegam que não importa onde são cultivados, os biocombustíveis competem com alimentos, forçando os agricultores ao redor do mundo a expandir para áreas nunca antes exploradas. A drenagem das turfeiras libera metano para a atmosfera. Se apenas 2,4% da demanda européia viesse de plantações de palma em antigas turfeiras, na Indonésia por exemplo, todos os benefícios climáticos do biodiesel europeu seriam aniquilados, diz um relatório do centro de pesquisas da própria Comissão.
Satisfazer a sede européia por biocombustíveis requereria 5,2 milhões de hectares de terra até 2020, diz um relatório, maior que a área da Holanda.
“Os problemas só vão ficar piores a menos que a UE reescreva a sua legislação permitindo que apenas biocombustíveis que tragam benefícios sejam vendidos na Europa”, disse a ativista Nusa Urbancic do grupo ambientalista T&E.
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