
Fonte: Redação / Janaína
Data: 14/02/2008 00:00
Um potencial de geração de energia de 25 mil GWh (GigaWatts/hora) ao ano, proveniente do bagaço da cana-de-açúcar, está sendo desperdiçado no Brasil por falta de regulamentação do nascente mercado da co-geração de energia. A estimativa é da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia (MME). O potencial do bagaço equivale a 5,4% dos 461.029 GWh gerados em 2006 por todas as fontes energéticas do País — hidroelétricas, termoelétricas, usinas nucleares, etc.
O dado consta do Plano Nacional de Energia — PNE 2030. Para fazer os cálculos que chegaram a esse potencial para a energia da co-geração, a EPE considerou os números de 2006, quando foram processados 430 milhões de toneladas de cana; e também um cenário no qual as tecnologias mais eficientes fossem adotadas pelas usinas. A partir dessas considerações, os técnicos da EPE chegaram à constatação de que o País poderá gerar, em 2030, até 39 mil GWh usando bagaço e palha de cana.
Os números foram apresentados por Vicente Correa Neto, da Superintendência de Recursos Energéticos da EPE, durante um workshop sobre co-geração realizado em janeiro na Unicamp, no âmbito das atividades do projeto Diretrizes de Políticas Públicas para a Agroindústria do Estado de São Paulo. No mesmo evento, Leonardo Santos Caio Filho, da Associação Paulista de Cogeração de Energia (Cogen), citou os empecilhos para a co-geração no País. Celso Zanatto, gerente de comercialização de energia do grupo Crystalsev, discutiu em detalhe os gargalos na regulamentação e no preço da energia, mostrando que estes desestimulam o investimento no desenvolvimento tecnológico que a co-geração ainda requer.
Os principais desafios para P&D em co-geração foram apresentados por Luiz Augusto Horta Nogueira, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei); Manoel Regis Leal, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Unicamp; e Antonio Bonomi, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Por fim, Vadson Bastos, assessor da vice-presidência de Tecnologia e Desenvolvimento da Dedini, demonstrou que o setor nacional de equipamentos está preparado para atender as demandas do mercado em co-geração.
A co-geração de energia é uma tecnologia de produção combinada de calor e potência (energia térmica e elétrica), destinada ao consumo próprio ou de terceiros. Na definição da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel): "o processo de produção combinada de calor útil e energia mecânica, geralmente convertida total ou parcialmente em energia elétrica, a partir da energia química disponibilizada por um ou mais combustíveis".
A co-geração já é utilizada, por exemplo, em refinarias e na indústria de papel e celulose. Usam-se resíduos agrícolas, madeira e outros materiais como matéria-prima para produção de mais energia, que será consumida pelas próprias indústrias. À semelhança do que ocorre no setor sucroalcooleiro, a co-geração de energia elimina o problema do descarte dos resíduos.
Luiz Augusto Horta Nogueira, da Unifei, dividiu as necessidades em P&D e inovação no tema da co-geração em duas grandes áreas. A primeira cobre as ações para consolidação e otimização de processos clássicos, já em uso; na segunda área, estariam os estudos de fronteira, mais exploratórios, em assuntos de viabilidade ainda não claramente definida. Nas tecnologias estabelecidas, ele vê como desafios o incremento nos parâmetros de vapor, que vão requerer materiais mais sofisticados que trabalhem em temperaturas e pressões muito mais elevadas; a diversificação no suprimento de combustíveis, com uso de outras biomassas que complementem a utilização do bagaço; o uso do gás natural; e mais estudos para modelagem de sistemas de controle.
Para as áreas de fronteira, ele citou como desafios importantes na pauta de P&D a gaseificação da biomassa (transformação de resíduo sólido em combustível de forma gasosa, por meio de reações termoquímicas) e o uso de turbinas a gás, com destaque para o tratamento de gases e a alimentação do sistema; a difusão de metodologias de análise de desempenho; e a organização e implementação de novos modelos de gestão e regulação, que sejam mais coerentes com as particularidades da geração distribuída, nome que se dá ao sistema de geração de energia que engloba aquela gerada por terceiros, como as usinas, por exemplo.
Manoel Regis Leal, do Nipe-Unicamp, ressaltou a necessidade de haver plantas de demonstração das novas tecnologias. Ele afirmou ainda que há estudos feitos em outros países com unidades de demonstração, como nos Estados Unidos, Suécia e Inglaterra, que comprovaram a viabilidade tecnológica da gaseificação da biomassa. A complexidade do processo, no entanto, impede sua viabilidade comercial. "Toda tecnologia tem uma curva de aprendizado. Quem vai arcar com os custos adicionais até ela ser viável comercialmente?", perguntou aos presentes. A gaseificação permitiria o aproveitamento do vapor e do calor gerados durante a co-geraçao, e geraria energia extra.
O pesquisador ressaltou ainda o potencial de uso da vinhaça para geração de energia — também sem viabilidade comercial no atual estágio de desenvolvimento. Leal apontou, nesse caso, a necessidade de avaliar se a compra de tecnologia no exterior não seria proveitosa. Em relação à palha, o pesquisador da Unicamp sugeriu mais estudos sobre seu efeito agronômico, ou seja, o papel que a palha exerce na fertilidade do solo e quanto ela auxilia no crescimento da planta. É preciso saber, por exemplo, quanto dela precisa ficar no campo para proteger os brotos da cana, impedir a erosão e reter a umidade. "E não sabemos ainda como queimar palha em caldeira de bagaço, materiais que são muito diferentes", acrescentou.
Antonio Bonomi, do IPT, também apresentou o que considera os principais desafios para P&D em co-geração, como o uso do ciclo combinado, processo no qual uma turbina a gás em alta temperatura movimenta um gerador que transfere o calor do gás para água. A água é vaporizada e aciona um segundo gerador, e ambos produzem energia elétrica. Ele destacou a utilização de outros resíduos agrícolas, além do bagaço e da palha, como forma de haver operações multicombustível. No uso da palha, ressaltou a necessidade de estudos sobre colheita e logística de transporte do material até a usina e sobre sua combinação com o uso do bagaço para co-geração e novas tecnologias, como a hidrólise, por exemplo.
O pesquisador acrescentou à lista de prioridades a definição de uma metodologia para avaliação dos avanços tecnológicos e de cenários para avaliação das tecnologias.
"Precisamos entender uma coisa: vale a pena investir em co-geração hoje, se amanhã teremos tecnologias que se revelem mais rentáveis? Para responder essa pergunta, precisamos saber o quanto a co-geração é rentável e quando as tecnologias estarão funcionando comercialmente", finalizou.
Vicente Correa Neto, da EPE, apresentou os números do PNE 2030; e afirmou notar o esforço em São Paulo e nas áreas de expansão do Centro-Oeste para incorporar à atual rede de transmissão e distribuição a energia co-gerada pelos produtores de açúcar e etanol. "As novas usinas vão se equipar para aproveitar os potenciais de negócios em co-geração", afirmou ele, referindo-se aos novos equipamentos, como as caldeiras de alta pressão, necessários para a co-geração.
Ele falou ainda do incentivo governamental dado nos leilões de energia para as usinas interessadas em vender a eletricidade que produzem.
"As usinas de biomassa podem dizer quanto vão fornecer no seu período de safra e, com base nessa projeção, é calculado o preço do leilão, o que não se permite para as outras formas (de geração de energia)", destacou.
O volume de geração de energia das usinas depende da quantidade de cana processada e também de seu estado. Em períodos de chuva, por exemplo, a água atrapalha o processamento. Diminuindo o volume de processamento de cana, há menos produção de bagaço e menor geração de energia. Além disso, na entressafra não há processamento de cana e nem produção de bagaço. A maior parte das usinas não conta com estrutura para armazenamento de bagaço. Esse tipo de sazonal idade é um problema para os leilões, porque a energia é vendida antes de ser produzida. Os oferecedores de energia precisam dizer quanto vão produzir e garantir a entrega do que foi vendido.
Leonardo Santos Caio Filho, da Cogen, ao comentar a apresentação feita por Correa Neto, disse que há três obstáculos para a viabilização dos projetos de co-geração: a conexão elétrica, o licenciamento ambiental e o estabelecimento do preço da energia co-gerada.
"De todos, o mais difícil de resolver é o da conexão, principalmente em Estados com produção consolidada, como São Paulo", completou ele, acrescentando que a instalação de uma linha transmissora de energia demora de 12 a 18 meses.
Celso Zanatto, do grupo Crystalsev, concordou com Caio Filho. Com 13 usinas, entre elas as gigantes Vale do Rosário e Santa Elisa, que se fundiram em 2007, a Crystalsev rivaliza com o grupo Cosan como um dos maiores grupos de produção e venda de açúcar e álcool do País.
"É fundamental esse esforço do governo em identificar o potencial, pois o setor era desacreditado sobre isso", disse ele, referindo-se ao fato de que poucos acreditavam nas projeções feitas pelo setor sucroalcooleiro em relação ao seu potencial de co-geração. "Mas há uma distância entre o potencial e a realidade da co-geração no Brasil e a conexão é o principal obstáculo", afirmou ele.
Zanatto disse que a co-geração nas usinas existe há mais de 70 anos, feita para consumo próprio. A crise energética de 2001 foi um estímulo para a venda da produção excedente — a "exportação", como se diz no jargão do setor. Devido ao alto preço da energia nessa ocasião, as distribuidoras conectaram pontos de transmissão às usinas. No entanto, passada a crise, veio a queda do preço e o desestímulo às usinas. Zanatto citou casos em que a distribuidora mudou o ponto de conexão depois de o projeto de co-geração estar concluído. Quando isso ocorre, a usina precisa rever todo o projeto.
"Situações assim desestimulam os investimentos", observou. "Uma usina nova, projetada para produzir 4 milhões de toneladas de cana, precisa de um investimento de R$ 150 milhões em co-geração", acrescentou.
Segundo ele, em São Paulo apenas a usina Santa Elisa faz co-geração no período de entressafra. Ela estoca o bagaço para poder usar os equipamentos que ficam parados quando a usina não opera. Outro fator a ser ponderado é o valor do bagaço de cana. Na Holanda, por exemplo, a tonelada do bagaço vale 120 euros. Ou seja, além de não haver estímulo para o alto investimento em co-geração, há operações mais rentáveis para as usinas direcionarem sua produção de bagaço.
"O setor carece de uma regulamentação; a existente é feita para grandes projetos, para hidroelétricas. Só em 2007 a Aneel regulamentou a lei de 2003 que permite a sazonal idade (na entrega da energia por parte das usinas)", criticou.
Entre outras medidas, ele disse ser necessário valorizar a energia co-gerada pelas usinas em períodos de seca e equilibrar o preço da energia no leilão e o valor das penalidades que incidem sobre a usina se ela não entregar os volumes prometidos.
"No leilão de abril (de 2007), pagava-se R$ 140 por MWh. Se não entregasse, a penalidade era de R$ 500 por MWh", disse.
Dos 62 empreendimentos cadastrados nesse leilão para exportar energia, apenas cinco venderam a energia co-gerada, segundo o empresário. E desses cinco, completou Zanatto, três estão com problemas de distribuição. Ele acrescentou que as usinas querem uma regulamentação que trabalhe com a competência. A usina não tem a competência para fazer a distribuição.
"Somos geradores de energia, não sabemos construir redes e linhas de transmissão. Por que o governo impõe esse custo para a usina?", apontou. "Estamos pedindo tratamento isonômico e regras claras", completou.
Correa Neto, da EPE, respondeu que já existem estudos para Mato Grosso e Goiás que identificam vazios na malha elétrica básica. Também explicou que em São Paulo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a EPE e a Cogen estão avaliando uma maneira de realizar as conexões em blocos de usina, e não ponto a ponto. Lembrou ainda que a lei diz ser obrigação do gerador fazer sua conexão com o ponto da distribuidora; e que o governo deve tratar a todos os setores da mesma maneira. Se a regra mudasse para o setor sucroalcooleiro, todos os outros setores exigiriam o mesmo, o que afetaria a estrutura de transmissão de energia vigente.
Vadson Bastos, da Dedini, ficou encarregado de responder se a indústria nacional está capacitada para atender a demanda. O executivo garantiu que o setor está preparado para atender não apenas o mercado interno, mas o externo também. Ele destacou que no "boom" promovido pelo Próalcool, entre 1975 e 1985, a produção de etanol no País aumentou de 600 milhões para 11,8 bilhões de litros e a de cana, de 68 milhões para 224 milhões de toneladas processadas.
Ele revelou, ainda, que a tecnologia das caldeiras de alta pressão — equipamentos essenciais para usinas interessadas em fazer co-geração —, que operam acima de 42 quilogramas-força por centímetro quadrado (kgf/cm2), já está dominada. Em 2003, por exemplo, a Dedini vendeu para a Veracel, fabricante de papel e celulose, uma caldeira que atua com pressão de 97 kgf/cm2. Segundo Bastos, a Dedini pode fabricar, anualmente, 50 usinas completas, número maior do que a demanda atual.
"O setor sucroalcooleiro domina todos os estágios da tecnologia, da engenharia, da produção, da operação, na parte agrícola e na industrial. Nossa tecnologia ocupa a liderança mundial e nosso índice de nacionalização beira os 100%", concluiu.
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